Roberto Piva – Poema de ninar para mim e Bruegel

2009 Outubro 23
por hilam

piva

“Ninguém ampara o cavaleiro

do mundo delirante”

Murilo Mendes

Eu te ouço rugir para os documentos e as multidões
   denunciando tua agonia as enfermeiras
   desarticuladas
A noite vibrava o rosto sobrenatural nos telhados
   manchados
Tua boca engolia o azul
Teu equilíbrio se desprendia nas vozes das alucinantes
   madrugadas
Nas boites onde comias pickles e lias Santo Anselmo
   nas desertas ferrovias
   nas fotografias inacessíveis
   nos topos umedecidos dos edifícios
   nas bebedeiras de xerez sobre os túmulos
As leguminosas lamentavam-se chocando-se contra o
   vento
   drogas davam movimentos demais aos olhos
Saltimbancos de Picasso conhecendo-te numa viela
maldita e os ruídos agachavam-se nos meus olhos
turbulentos resta dizer uma palavra sobre os roubos
enquanto os cardeais nos saturam de conselhos
bem-aventurados e a Virgem lava sua bunda imaculada
na pia batismal
Rangem os dentes da memória
segredos públicos pulverizam-se em algum ponto da
América peixes entravados se sentam contra a noite
O parque Shangai é conquistado pela lua
adolescentes beijam-se no trem-fantasma
sargentos se arredondam no palácio dos espelhos
Eu percorro todas as barracas
   atropelando anjos da morte chupando sorvete
os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas
os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas
a paisagem racha-se de encontro com as almas
o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as
   gaiolas de carne crua
Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de
   São Paulo
e como um escravo vou medindo a vacilante música
   das flâmulas

in Antologia Poética, Roberto Piva, L&PM

ONE-NINE-NINE-FOUR

2009 Outubro 10
por hilam
ONE – NINE – NINE – FOUR
Na verdade (ou seja, no que se vê), na realidade,
onde me volto perseverante,
sempre procuro teus olhos procurando os meus;
espero cruzarmos as setas de LASER,
esboçar
o mais infinito impacto destas energias
mais-que-lunáticas,
espaciais,
que são capazes do fio invisível que nos liga tão profundamente…
Na verdade, não há verdade alguma sobre mim
que não possa ser desdita,
que não possa transformar-se em mentira
pela própria verdade-realidade;
um mutatis mutandis
impregnado até a alma da fluidez dita pelo efésio,
um cientista prático que não se deixa tornar símbolo-fixo!
Há mais que possa ser desdito ou dito num poema,
que possa revelar algo do estático?
Quem dera pudesse agir estaticamente, como um sábio chinês.
Mas sou grego e permito-me apenas um eco
cujo sentido de realidade é perseverante:
vejo, ouço, cheiro, gosto, toco, sinto, penso
a essência e a matéria
do meu
círculo.

redsea_

Na verdade (ou seja, no que se vê), na realidade,

onde me volto perseverante,

sempre procuro teus olhos procurando os meus;

espero cruzarmos as setas de LASER,

esboçar

o mais infinito impacto destas energias

mais-que-lunáticas,

espaciais,

que são capazes do fio invisível que nos liga tão profundamente…

Na verdade, não há verdade alguma sobre mim

que não possa ser desdita,

que não possa transformar-se em mentira

pela própria verdade-realidade;

um mutatis mutandis

impregnado até a alma da fluidez dita pelo efésio,

um cientista prático que não se deixa tornar símbolo-fixo!

Há mais que possa ser desdito ou dito num poema,

que possa revelar algo do estático?

Quem dera pudesse agir estaticamente, como um sábio chinês.

Mas sou grego e permito-me apenas um eco

cujo sentido de realidade é perseverante:

vejo, ouço, cheiro, gosto, toco, sinto, penso

a essência e a matéria

do meu

círculo.

Belchior – Coração selvagem

2009 Agosto 28
por hilam

090317296920

Não é estranho eu lembrar de registrar isso agora…

Em 1990 eu quase furo esse LP. Vai a letra pra nós…

Coração Selvagem

Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja, no seu copo, no seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo, tenho pressa de viver

Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro,
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo

Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver

Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida: “Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado é frágil;
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela”

Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo
Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho, algum punhal de amor traído, completará o meu destino.

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo
Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem
Que outros cantores chamam baby (4 x)

Belchior

Que anjo?

2009 Agosto 28
por hilam
Deus me fez anjo de poucas asas, mas certeiras.
O que escondem as águas que submergem os corpos?
As cidades, à noite, escondem águas submersas
nas sombras dos olhos que enxergam a noite
como uma deusa de fino e leve toque…
àspero e fugaz. Ligeiro ao toque, gritando como
possesso: pancadas na porta! Capturando silencio-
samente as vibrações sonoras sonâmbulas abrem
olhos incrivelmente fugazes, escondendo-se nas
sombras, nos movimentos rápidos desses olhos…
E esconder é apenas uma parte da fugacidade:
ferocidade sonora para compensar a pouca
rebeldia. Ecos alterados pelas formas
que já vem prontas, fôrmas, armazenar
a informação, dispersar pelos filtros di-
versos.
E uma vez dis-perso não asseguro mais nada.
Voo baixo, não há porque respirar o gás.
Antes que desfaça, agonizando junto do corpo,
revelar toda tenacidade possível, veloz e
certeiro como o falcão que aprende a voar…
12.3.2000

falcao1

Deus me fez anjo de poucas asas, mas certeiras.

O que escondem as águas que submergem os corpos?

As cidades, à noite, escondem águas submersas

nas sombras dos olhos que enxergam a noite

como uma deusa de fino e leve toque…

àspero e fugaz. Ligeiro ao toque, gritando como

possesso: pancadas na porta! Capturando silencio-

samente as vibrações sonoras sonâmbulas abrem

olhos incrivelmente fugazes, escondendo-se nas

sombras, nos movimentos rápidos desses olhos…

E esconder é apenas uma parte da fugacidade:

ferocidade sonora para compensar a pouca

rebeldia. Ecos alterados pelas formas

que já vem prontas, fôrmas, armazenar

a informação, dispersar pelos filtros di-

versos.

E uma vez dis-perso não asseguro mais nada.

Voo baixo, não há porque respirar o gás.

Antes que desfaça, agonizando junto do corpo,

revelar toda tenacidade possível, veloz e

certeiro como o falcão que aprende a voar…

12.3.2000

Bukowski, Charles : the life of borodin

2009 Agosto 22
por hilam

saudade

Bukowski, Charles:the life of borodin

[from Burning in Water Drowning in Flame:
Selected Poems 1955-1973 (1997), Black Sparrow Press]

the next time you listen to Borodin
remember he was just a chemist
who wrote music to relax;
his house was jammed with people:
students, artists, drunkards, bums,
and he never knew how to say: no.
the next time you listen to Borodin
remember his wife used his compositions
to line the cat boxes with
or to cover jars of sour milk;
she had asthma and insomnia
and fed him soft-boiled eggs
and when he wanted to cover his head
to shut out the sounds of the house
she only allowed him to use the sheet;
besides there was usually somebody
in his bed
(they slept separately when they slept
at all)
and since all the chairs
were usually taken
he often slept on the stairway
wrapped in an old shawl;
she told him when to cut his nails,
not to sing or whistle
or put too much lemon in his tea
or press it with a spoon;
Symphony #2, in B Minor
Prince Igor
On the Steppes of Central Asia
he could sleep only by putting a piece
of dark cloth over his eyes;
in 1887 he attended a dance
at the Medical Academy
dressed in a merrymaking national costume;
at last he seemed exceptionally gay
and when he fell to the floor,
they thought he was clowning.
the next time you listen to Borodin,
remember …

Tradução:

Da próxima vez que escutar Borodin
Lembre-se que ele era apenas um químico
que escreveu música para relaxar;
a casa era invadida pelas pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vagabundos,
e eles nunca sabiam como dizer: não.
a próxima vez que escutar Borodin
lembre que a esposa dele usou suas composições
para alinhar as caixas do gato
ou cobrir jarras de leite coalhado;
ela tinha asma e insônia
e alimentava-se com ovos mau cozidos
e quando ela queria cobrir a cabeça
para fechar-se aos sons da casa
só permitia-o usar um lençol fino;
sempre havia alguém perto
da cama
(eles dormiam separados, quando dormiam,
é tudo)
e desde então, em todas as cadeiras
que sentavam
ele dormia frequentemente na escada
enrolado num velho xale;
ela conversava enquanto cortava suas unhas,
não cantava ou jogava cartas
nem punha muito limão no chá
ou pressionava-o com uma colher;
Sinfonia #2, em B Menor
Príncipe Igor
Nas Estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano escuro sobre os olhos;
em 1887 uma dançarina lhe chamou a atenção
na Medical Academy
vestida numa fantasia regional de foliã;
ao menos deu-lhe a impressão de ser excepcionalmente alegre
e quando ele caiu ao solo,
pensaram que ele estava brincando.

Da próxima vez que escutar Borodin,
Lembre-se…

Traduzido por Hilam A na Grama

Cartas para anos mortos

2009 Agosto 11
por hilam

Essas poesias nasceram juntas, numa sequência que mais tarde eu encontraria nas cartas do tarô. Foi uma experiência muito interessante, e foram reunidas numa edição especial. Estejam à vontade para baixar
e comentar, se assim desejarem.

Link para baixar (.pdf):

Cartas para anos mortos