“Ninguém ampara o cavaleiro
do mundo delirante”
Murilo Mendes
Eu te ouço rugir para os documentos e as multidões denunciando tua agonia as enfermeiras desarticuladas A noite vibrava o rosto sobrenatural nos telhados manchados Tua boca engolia o azul Teu equilíbrio se desprendia nas vozes das alucinantes madrugadas Nas boites onde comias pickles e lias Santo Anselmo nas desertas ferrovias nas fotografias inacessíveis nos topos umedecidos dos edifícios nas bebedeiras de xerez sobre os túmulos As leguminosas lamentavam-se chocando-se contra o vento drogas davam movimentos demais aos olhos Saltimbancos de Picasso conhecendo-te numa viela maldita e os ruídos agachavam-se nos meus olhos turbulentos resta dizer uma palavra sobre os roubos enquanto os cardeais nos saturam de conselhos bem-aventurados e a Virgem lava sua bunda imaculada na pia batismal Rangem os dentes da memória segredos públicos pulverizam-se em algum ponto da América peixes entravados se sentam contra a noite O parque Shangai é conquistado pela lua adolescentes beijam-se no trem-fantasma sargentos se arredondam no palácio dos espelhos Eu percorro todas as barracas atropelando anjos da morte chupando sorvete os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas a paisagem racha-se de encontro com as almas o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as gaiolas de carne crua Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de São Paulo e como um escravo vou medindo a vacilante música das flâmulas in Antologia Poética, Roberto Piva, L&PM
Na verdade (ou seja, no que se vê), na realidade,
onde me volto perseverante,
sempre procuro teus olhos procurando os meus;
espero cruzarmos as setas de LASER,
esboçar
o mais infinito impacto destas energias
mais-que-lunáticas,
espaciais,
que são capazes do fio invisível que nos liga tão profundamente…
Na verdade, não há verdade alguma sobre mim
que não possa ser desdita,
que não possa transformar-se em mentira
pela própria verdade-realidade;
um mutatis mutandis
impregnado até a alma da fluidez dita pelo efésio,
um cientista prático que não se deixa tornar símbolo-fixo!
Há mais que possa ser desdito ou dito num poema,
que possa revelar algo do estático?
Quem dera pudesse agir estaticamente, como um sábio chinês.
Mas sou grego e permito-me apenas um eco
cujo sentido de realidade é perseverante:
vejo, ouço, cheiro, gosto, toco, sinto, penso
a essência e a matéria
do meu
círculo.
Não é estranho eu lembrar de registrar isso agora…
Em 1990 eu quase furo esse LP. Vai a letra pra nós…
Coração Selvagem
Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja, no seu copo, no seu colo e nesse bar
Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo, tenho pressa de viver
Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro,
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo
Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver
Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida: “Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado é frágil;
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela”
Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo
Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho, algum punhal de amor traído, completará o meu destino.
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo
Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem
Que outros cantores chamam baby (4 x)
Belchior
Deus me fez anjo de poucas asas, mas certeiras.
O que escondem as águas que submergem os corpos?
As cidades, à noite, escondem águas submersas
nas sombras dos olhos que enxergam a noite
como uma deusa de fino e leve toque…
àspero e fugaz. Ligeiro ao toque, gritando como
possesso: pancadas na porta! Capturando silencio-
samente as vibrações sonoras sonâmbulas abrem
olhos incrivelmente fugazes, escondendo-se nas
sombras, nos movimentos rápidos desses olhos…
E esconder é apenas uma parte da fugacidade:
ferocidade sonora para compensar a pouca
rebeldia. Ecos alterados pelas formas
que já vem prontas, fôrmas, armazenar
a informação, dispersar pelos filtros di-
versos.
E uma vez dis-perso não asseguro mais nada.
Voo baixo, não há porque respirar o gás.
Antes que desfaça, agonizando junto do corpo,
revelar toda tenacidade possível, veloz e
certeiro como o falcão que aprende a voar…
12.3.2000
Bukowski, Charles:the life of borodin
[from Burning in Water Drowning in Flame:
Selected Poems 1955-1973 (1997), Black Sparrow Press]
the next time you listen to Borodin
remember he was just a chemist
who wrote music to relax;
his house was jammed with people:
students, artists, drunkards, bums,
and he never knew how to say: no.
the next time you listen to Borodin
remember his wife used his compositions
to line the cat boxes with
or to cover jars of sour milk;
she had asthma and insomnia
and fed him soft-boiled eggs
and when he wanted to cover his head
to shut out the sounds of the house
she only allowed him to use the sheet;
besides there was usually somebody
in his bed
(they slept separately when they slept
at all)
and since all the chairs
were usually taken
he often slept on the stairway
wrapped in an old shawl;
she told him when to cut his nails,
not to sing or whistle
or put too much lemon in his tea
or press it with a spoon;
Symphony #2, in B Minor
Prince Igor
On the Steppes of Central Asia
he could sleep only by putting a piece
of dark cloth over his eyes;
in 1887 he attended a dance
at the Medical Academy
dressed in a merrymaking national costume;
at last he seemed exceptionally gay
and when he fell to the floor,
they thought he was clowning.
the next time you listen to Borodin,
remember …
Tradução:
Da próxima vez que escutar Borodin
Lembre-se que ele era apenas um químico
que escreveu música para relaxar;
a casa era invadida pelas pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vagabundos,
e eles nunca sabiam como dizer: não.
a próxima vez que escutar Borodin
lembre que a esposa dele usou suas composições
para alinhar as caixas do gato
ou cobrir jarras de leite coalhado;
ela tinha asma e insônia
e alimentava-se com ovos mau cozidos
e quando ela queria cobrir a cabeça
para fechar-se aos sons da casa
só permitia-o usar um lençol fino;
sempre havia alguém perto
da cama
(eles dormiam separados, quando dormiam,
é tudo)
e desde então, em todas as cadeiras
que sentavam
ele dormia frequentemente na escada
enrolado num velho xale;
ela conversava enquanto cortava suas unhas,
não cantava ou jogava cartas
nem punha muito limão no chá
ou pressionava-o com uma colher;
Sinfonia #2, em B Menor
Príncipe Igor
Nas Estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano escuro sobre os olhos;
em 1887 uma dançarina lhe chamou a atenção
na Medical Academy
vestida numa fantasia regional de foliã;
ao menos deu-lhe a impressão de ser excepcionalmente alegre
e quando ele caiu ao solo,
pensaram que ele estava brincando.
Da próxima vez que escutar Borodin,
Lembre-se…
Traduzido por Hilam A na Grama
Essas poesias nasceram juntas, numa sequência que mais tarde eu encontraria nas cartas do tarô. Foi uma experiência muito interessante, e foram reunidas numa edição especial. Estejam à vontade para baixar
e comentar, se assim desejarem.
Link para baixar (.pdf):




