Cartas para anos mortos

Essas poesias nasceram juntas, numa sequência que mais tarde eu encontraria(?) nas cartas do tarô.

Uma experiência muito interessante, reunidas numa edição especial.

 

Link para baixar (.pdf):

Cartas para anos mortos

 

Link para ler online:

Cartas para anos mortos (online)

 

Cotidiana Mente


Estou num redemoinho: pequenos insetos,
folhas caindo, desconhecidos passando ao lado;
raios me partam ou me levem, preciso de
arrebatamento, instantâneo, para longe.

                                 Longe no tempo e no espaço, vou recuperar
                                 minha vontade de viver, minha malandragem,
                                 minha estima; se continuar aqui, mais à 
                                 frente serei só um moribundo eficaz:

trabalhar 8 horas, levar o pão pra casa,
jantar a comida e a mulher, desejar
voar sem ter imaginação suficiente,
acordar cedo e me despedir para o trabalho.

                                 Que vida besta! tão comum, tão previsível.
                                 Que escolha eu fiz? Parece que nunca
                                 li o manifesto surrealista, que não
                                 aprendi nada com Nietzsche e Morrison.

Parece pior estar assim, com tantos
dilemas interessantes e sem ação.
O que poderá me salvar dessa roda
infinita e insalubre? Somente a poesia.

Celebração atualizada


Se não me engano, passaram-se dez anos;
queríamos mudar o mundo (ainda queremos),
uníamos mentes disformes de qualquer
sexo, para não frustrar a tentativa:

pessoas mortas revivendo em frente a nós:
era o elixir de que precisavam, o exemplo,
a última cadeia soltado-se com gritos;
as ânsias de sexo e loucura, as manhãs...

continuamos os mesmos, mas as pessoas hoje
são diferentes, não as conhecemos mais.
Não nos buscam, totalmente embotadas.
Não nos oferecemos, exclusivamente atentos.

Pode ser medo, pode ser cansaço, o
mundo não mudou com tanta interferência;
não nos expomos, pais ou não,preferimos
o tédio seguro, a agenda repleta, sem hora.

Ainda queremos mudar as pessoas (o mundo?).
Mas uma década é tempo suficiente para
esquecermos as palavras e os gritos...
Temos que atualizar a celebração!

Criaturas embaçadas



AMO TUA BOCA DEVASTADA POR FUMAÇAS DIABÓLICAS 
(Roberto Piva)

Noite em branco, gatos cinzentos pas-
seando, lembranças do passado, latas
amassadas, sons estridentes de ferro,
noite embassada em pleno centro.

Às vezes música clássica, às vezes punk;
tínhamos muito por fazer, acender velas,
polir as panelas, desafinar o piano,
gritar com força, arrancar o tédio

da alma e do coração, fazer a diferença;
amar as garotas loucas, beber muito
com os garotos loucos, guiar a humanidade
deles para algo construtivo, polir a voz.

Quando a noite ia alta, celebrar com
vinho e poesia a desandança da propri-
edade privada, mentes juvenis suplicando
por tudo que lhes removesse a letargia.

Vamos começar tudo de novo!, espalhar
os metais, pedir pra ninguém se machucar,
colocar as bebidas pra gelar, enrolar
os cigarros naturais e colocar a música...

Minha alegria é poesia



este é o banquete do poeta
                     sempre
                     querendo
                 penetrar
                     no caroço
                           da verdade.
(Roberto Piva)

Por quê a calma e a felicidade são
tão anti-artísticas? Ninguém lembra
da catarse artística a não ser que sofra?
Será a ingratidão íntima do humano?

Quero gritar o regozijo! Embora não
esteja rico e famoso (o que pode ser
muito bom!) fiz por onde estar em paz.
E para festejar também há poesia.

Talvez não tão boa quanto quando
sofro como o comum dos mortais, mas
não pretendo deixar em branco a página,
nem esquecer que minha alegria é poesia.

Meus amigos, meus amores, cante ale-
gremente a vida que se nos esgota!
Que passa como um lento raio, que
nos arrasta no seu ritmo e devoção...

26/01/2011

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