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Dolências

Baseado em fatos (ir)reais


Cenário:

–         Quadros com figuras grotescas

–         Um fogareiro aceso

–         Jornais, garrafas, latas

Personagens:

Persigal

Homem 1

Homem 2

Ato Único

(Entra Persigal, um sujeito velho, capengando, segurando um cajado numa das mãos e um saco cinza-preto na outra, tipicamente o mendigo-eremita moderno)

PERSIGAL – Não há saída! Eu firo duramente aqueles que me ferem… E o larvário da cidade cresce, igual a um parto, um grande feto que vem substituir a espécie humana! TARA BUBA COME, TARA BUBA CAGA. E a morte é realmente um tédio, realmente um tédio…

(Ele grita, reza, e tira de dentro da roupa, próximo ao coração, um grande chumaço de algodão embebido de sangue cênico. Coloca o algodão dentro do saco e começa a rir descontroladamente. Ri. Do seu saco cinza-preto saltam duas pessoas.)

HOMEM 1 – Mas que calor dos diabos está fazendo! Eles nunca nos deixarão dormir até que estejamos mortos e então eles pensarão em algum novo truque…

HOMEM 2 – Experimentando a confusão da liberdade, você devia me pagar uma bebida gelada, não acha?

HOMEM – Acho a vida vagamente interessante, ao invés de realmente aterradora. Você viu as notícias ultimamente?

(As pessoas conversam sobre as notícias. Futebol, guerra, assassinatos. Não notam a presença de Persigal sob hipótese nenhuma. Enquanto isso, Persigal ri. Ainda rindo, chuta algumas latas, se aproxima do fogareiro e pára como que por respeito. Tocam sinos, ele se coloca frente ao fogo, olhos postos no chão, o corpo balançando como se fosse um pêndulo. Luz branca e forte em cima dele.)

PERSIGAL – Eu venho me sentindo estranho ultimamente, quase como se estivesse ficando louco. Essa luz, rouba de mim as chaves da prisão e eu morro! Como as folhas que brotam na primavera e crescem rápidas à luz do sol; e quando passa a plenitude desse tempo é melhor morrer do que viver!

(Persigal solta o cajado e cai de joelhos, em cima do saco. Ele deverá encenar um parto [ou uma cagada], tirando de dentro do saco o manto embassado [o filho ou a obra]. Luz ameniza.)

HOMEM 1 – Viu o que aqueles árabes loucos estão aprontando? Também aquele povo não pára de guerrear?

HOMEM 2 – Eu achei muita cara-de-pau eles derrubarem aquelas torres. Deixaram o Bush com cara de peão…

PERSIGAL – Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.

(Riem todos juntos.)

PERSIGAL – A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável. Quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.

Ah, meus pés de puro carvão! Estou como o tempo, pousado nas calçadas! Paz de todos os esquecimentos…

Homem mortal, não queiras predizer o que o Amanhã trará. É rápida a mudança… Pequena é a força do homem, vãos os seus cuidados; para nós, em vida curta, só existe fadiga após fadiga…

(Luz aumenta. Persigal levanta, tira restos de comida e bebida do saco e começa a dançar e festejar. Canta, come e ri. )

HOMEM 1 – Cara-de-pau é daquela menininha que seqüestrou a filha do ricaço, para distribuir cestas de alimentos para os necessitados. (irônico) Dá uma dó!…

HOMEM 2 – O cara fez a cabeça dela direitinho…

HOMEM – Fez a cabeça, o quê! Ela sabia muito bem o que estava fazendo…

PERSIGAL – (correndo pelo palco e tentando se relacionar com as pessoas) Não há ninguém de onde possa partir uma idéia? Se foder o mínimo possível, de modo que você possa entrar onde você pretende entrar? De que vale a vida cheia de símbolos diversos, se quem vale a vida é cheio de símbolo fixo?

(Som grotesco, fazendo com que Persigal se volte para o fogo e emita grunhidos, como se estivesse respondendo uma pergunta. Novo som grotesco. Persigal se volta para o lado oposto das pessoas e responde grunhindo. Deixa as pessoas completamente e se volta para o fogo.)

PERSIGAL – A vida declara seu amor na existência do corpo fétido. Tento chorar, mas sinto os olhos enxutos. A forma não tem importância, é o fundo que conta. Nada é gratuito neste mundo. Tudo se paga, o bem, assim como o mal, cedo ou tarde se paga. O bem é muito mais caro… Necessariamente…

“(…)Acostumei-me, assim, pois, a sofrer

E acostumado a assim sofrer existo…

Existo! – E apesar disto

Inda cadáver hei também de ser!

Quando eu morrer de novo, amigos, quando

Eu, de saudades me despedaçando,

De novo, triste e sem cantar, morrer,

Nada se altere em sua marcha infinda

–         O tamarindo reverdeça ainda,

A lua continue sempre a nascer!”

(Persigal pega o saco e sai. Pessoas conversam sobre futebol enquanto a luz vai apagando…)

HOMEM 1 – Não adianta escalar três zagueiros, camarada. Já viu zagueiro saber fazer gol? Só faz na cagada…

HOMEM 2 – Mas o time vai entrosar. Aí eu quero ver quem vai nos segurar…

PERSIGAL – (grita de fora da cena) Vamos celebrar!!!

FIM

Este texto é uma colagem, “baseado” em vários outros textos, inter-textualizando-os para outro fim. Os textos utilizados, ora como trechos citados, ora como influência direta:

  • Persigal, de Neander Cortez,
  • Cenas da Penitenciária (conto) e Notas de um velho safado, de Charles Bukovski,
  • Morte a Crédito e A vida e a obra de Semmelweis, de Cèline,
  • Falas a Dioniso em crise, de minha autoria, diversos fragmentos de poesia grega e latina e
  • alguns poemas de Augusto dos Anjos, inclusive o poema Dolências, que dá nome ao texto e é declamado pelo personagem.

Hilam A na Grama

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