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Roberto Piva – O século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes)

Foto de Piva

Roberto Piva

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gangsters, seus gangsters ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, seus anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seu jardinzinhos com vidro fumê, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheio de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas com desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.

1984

Roberto Piva – poema submerso

Piva moço

Piva moço

Do seu livro “Paranóia”

Fotos de Wesley Duke Lee

primeira parte do poema

foto

foto

segunda parte do poema

autógrafo do poeta

PS.: Piva faleceu no último sábado. Era o maior poeta brasileiro vivo.

Roberto Piva – Poema de ninar para mim e Bruegel

piva

“Ninguém ampara o cavaleiro

do mundo delirante”

Murilo Mendes

Eu te ouço rugir para os documentos e as multidões
   denunciando tua agonia as enfermeiras
   desarticuladas
A noite vibrava o rosto sobrenatural nos telhados
   manchados
Tua boca engolia o azul
Teu equilíbrio se desprendia nas vozes das alucinantes
   madrugadas
Nas boites onde comias pickles e lias Santo Anselmo
   nas desertas ferrovias
   nas fotografias inacessíveis
   nos topos umedecidos dos edifícios
   nas bebedeiras de xerez sobre os túmulos
As leguminosas lamentavam-se chocando-se contra o
   vento
   drogas davam movimentos demais aos olhos
Saltimbancos de Picasso conhecendo-te numa viela
maldita e os ruídos agachavam-se nos meus olhos
turbulentos resta dizer uma palavra sobre os roubos
enquanto os cardeais nos saturam de conselhos
bem-aventurados e a Virgem lava sua bunda imaculada
na pia batismal
Rangem os dentes da memória
segredos públicos pulverizam-se em algum ponto da
América peixes entravados se sentam contra a noite
O parque Shangai é conquistado pela lua
adolescentes beijam-se no trem-fantasma
sargentos se arredondam no palácio dos espelhos
Eu percorro todas as barracas
   atropelando anjos da morte chupando sorvete
os fios telegráficos simplificam as enchentes e as secas
os telefones anunciam a dissolução de todas as coisas
a paisagem racha-se de encontro com as almas
o vento sul sopra contra a solidão das janelas e as
   gaiolas de carne crua
Eu abro os braços para as cinzentas alamedas de
   São Paulo
e como um escravo vou medindo a vacilante música
   das flâmulas

in Antologia Poética, Roberto Piva, L&PM


Leia mais:

Roberto Piva – Antinous

Roberto Piva – À Deriva no Rio da Existência

 

 

abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.

Roberto Piva