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Octavio Paz – citação d’Os filhos de barro

Foto de Octavio Paz

Octavio Paz

Octavio Paz (em Os filhos do barro, Los hijos del limo)

Viver no agora é viver cara a cara com a morte. O homem inventou as eternidades e o futuro para escapar da morte, porém cada um desses inventos foi uma armadilha mortal. O agora nos reconcilia com nossa realidade: somos mortais. Só diante da morte nossa vida é realmente vida. No agora, nossa morte não está separada da nossa vida: são a mesma realidade, o mesmo fruto.

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Eu queria uma explicação para o que estou sentindo

soft castle by Joel Real

soft castle by Joel Real

Depois de ver as notícias matutinas, dei por mim sentindo um mal-estar estranho.

A revolta contra o que Israel está aprontando de novo em Gaza, a plausibilidade dos EUA estarem por trás da queda do avião repleto de cientistas pesquisadores da AIDS, seja por causa do lucro com a venda de armas para o conflito Ucrânia-Rússia, seja por influência da indústria farmacêutica no governo do país.

No Brasil, estamos expostos, a qualquer momento, a sermos presos por defender uma sociedade mais justa e igualitária, a sermos indiciados pelo crime de ‘humanismo’.

Minha própria vida pessoal tem tido altos e baixos de dar enjoo a qualquer frequentador de montanha russa.

Ao longo do mal-estar, lembrei de pedir orientação ao milenar oráculo “I Ching”. Está me ajudando a entender o atual momento pelo qual todos estamos passando. Eis a resposta:

CONDUTA
Hexagrama 10

“A situação é realmente difícil. O mais forte e o mais fraco encontram-se muito próximos um do outro”. Quando o fraco segue a trilha do forte e o provoca, se esta atitude se deu de forma alegre e inofensiva, então não há mal, o mais forte aceitará. Ao lidar com o que é insuportável, o mais sensato é manter a conduta com decoro. Pela gentileza se consegue sucesso até mesmo em tais circunstâncias. O hexagrama ensina que o reconhecimento dos próprios limites pode estimular a busca da perfeição, da integridade e do equilíbrio. Manter-se firme no justo meio e ocupar um lugar de força sem ser inconveniente representa um êxito feliz, uma grande glória.

Quando a quarta linha for móvel:

Alcançou-se a liberdade de escolha. Pode seguir o caminho da influência (o caminho dos heróis) ou o caminho da reclusão (o caminho dos sábios). Decida livremente de acordo com seus sentimentos e sua natureza, só assim encontrará o caminho que lhe corresponde, o caminho que será o certo e sem culpa.

Em movimento para: VERDADE INTERIOR (Hexagrama 61)

O que está em jogo é a sinceridade profunda e a confiança. Propicia-se a harmonia e a comunhão através de alegria e flexibilidade: grande confiança! Tal alegria deve ser desprovida de reservas ou segundas intenções, deve ser direta e atingir a todos. É favorável seguir em frente. Sempre tomando as medidas necessárias para concretizar os objetivos. Mantendo-se receptivo(a), livre de conceitos e expectativas que limitariam a criatividade. Mas confiança e verdade interior não querem dizer intimidade sem critérios, pois uma cumplicidade desonesta só levará a resultados desastrosos. Apenas quando as alianças se alicerçam na retidão e na firmeza os laços permanecem fortes o bastante para vencer as forças adversas. “A ligação sincera entre as pessoas depende de um contato interior; quando duas vontades estão unidas, haverá uma natural ressonância”. (Wu Jyh Cherng) “Seja cauteloso(a) em seus julgamentos e adie a condenação de pessoas à morte”. Busque a verdade penetrando nas mentes das pessoas com compreensão. Saber perdoar em tais circunstâncias pode se constituir na forma suprema de justiça, pois gera uma impressão moral tão forte que propicia a retificação da conduta. O perdão, concedido de modo apropriado e no momento oportuno, tem um profundo alcance humano e espiritual, pois liberta ambos os lados.

 

à Embassação


 

Queremos aqui estrangular a dúvida que um dia o estado mais inteiro de consciência trará diante dos nossos parvos olhos o sentido profundo da palavra banimento.

 

 

Fomos banidos, banidos da consciência de que não existe nenhum rei ditando as cores de nossas telas ou fronteirizando os nossos sentidos estéticos.

 

 

Fomos banidos da torre alta, mãe de todas as amplas visões. Banidos dos nossos olhos, aqueles que em alguns momentos estiveram tão abertos que quase nos fizeram ver o mundo inteiro.

 

 

Lançaremos as nossas últimas âncoras no centro de um grito alucinado, o grito indiferente da vida que explode proscrita nos passos de Seu Mosinho, na camisa vermelha pendurada no fio, que também é rasgo de sangue no céu azul e nas histórias contadas pra alguém (não importa quem) de Seu Antônio. Embassação é uma inquietude nos olhos e no espírito, é uma seta banguela e com um saco nas costas indicando a todos a   contra-mão mais próxima. Viva a Pororoca! Viva a flor branca que se pode comer, à porta de moldura azul, nossos corações contritos, aos baldes iluminados, nossa tempestuosa comoção estética. À todas as paredes sujas e esquecidas (assim como pessoas) nossa mais absoluta e profunda reverência.

 

Neander Cortez

 

Dolências

Baseado em fatos (ir)reais


Cenário:

–         Quadros com figuras grotescas

–         Um fogareiro aceso

–         Jornais, garrafas, latas

Personagens:

Persigal

Homem 1

Homem 2

Ato Único

(Entra Persigal, um sujeito velho, capengando, segurando um cajado numa das mãos e um saco cinza-preto na outra, tipicamente o mendigo-eremita moderno)

PERSIGAL – Não há saída! Eu firo duramente aqueles que me ferem… E o larvário da cidade cresce, igual a um parto, um grande feto que vem substituir a espécie humana! TARA BUBA COME, TARA BUBA CAGA. E a morte é realmente um tédio, realmente um tédio…

(Ele grita, reza, e tira de dentro da roupa, próximo ao coração, um grande chumaço de algodão embebido de sangue cênico. Coloca o algodão dentro do saco e começa a rir descontroladamente. Ri. Do seu saco cinza-preto saltam duas pessoas.)

HOMEM 1 – Mas que calor dos diabos está fazendo! Eles nunca nos deixarão dormir até que estejamos mortos e então eles pensarão em algum novo truque…

HOMEM 2 – Experimentando a confusão da liberdade, você devia me pagar uma bebida gelada, não acha?

HOMEM – Acho a vida vagamente interessante, ao invés de realmente aterradora. Você viu as notícias ultimamente?

(As pessoas conversam sobre as notícias. Futebol, guerra, assassinatos. Não notam a presença de Persigal sob hipótese nenhuma. Enquanto isso, Persigal ri. Ainda rindo, chuta algumas latas, se aproxima do fogareiro e pára como que por respeito. Tocam sinos, ele se coloca frente ao fogo, olhos postos no chão, o corpo balançando como se fosse um pêndulo. Luz branca e forte em cima dele.)

PERSIGAL – Eu venho me sentindo estranho ultimamente, quase como se estivesse ficando louco. Essa luz, rouba de mim as chaves da prisão e eu morro! Como as folhas que brotam na primavera e crescem rápidas à luz do sol; e quando passa a plenitude desse tempo é melhor morrer do que viver!

(Persigal solta o cajado e cai de joelhos, em cima do saco. Ele deverá encenar um parto [ou uma cagada], tirando de dentro do saco o manto embassado [o filho ou a obra]. Luz ameniza.)

HOMEM 1 – Viu o que aqueles árabes loucos estão aprontando? Também aquele povo não pára de guerrear?

HOMEM 2 – Eu achei muita cara-de-pau eles derrubarem aquelas torres. Deixaram o Bush com cara de peão…

PERSIGAL – Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.

(Riem todos juntos.)

PERSIGAL – A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável. Quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.

Ah, meus pés de puro carvão! Estou como o tempo, pousado nas calçadas! Paz de todos os esquecimentos…

Homem mortal, não queiras predizer o que o Amanhã trará. É rápida a mudança… Pequena é a força do homem, vãos os seus cuidados; para nós, em vida curta, só existe fadiga após fadiga…

(Luz aumenta. Persigal levanta, tira restos de comida e bebida do saco e começa a dançar e festejar. Canta, come e ri. )

HOMEM 1 – Cara-de-pau é daquela menininha que seqüestrou a filha do ricaço, para distribuir cestas de alimentos para os necessitados. (irônico) Dá uma dó!…

HOMEM 2 – O cara fez a cabeça dela direitinho…

HOMEM – Fez a cabeça, o quê! Ela sabia muito bem o que estava fazendo…

PERSIGAL – (correndo pelo palco e tentando se relacionar com as pessoas) Não há ninguém de onde possa partir uma idéia? Se foder o mínimo possível, de modo que você possa entrar onde você pretende entrar? De que vale a vida cheia de símbolos diversos, se quem vale a vida é cheio de símbolo fixo?

(Som grotesco, fazendo com que Persigal se volte para o fogo e emita grunhidos, como se estivesse respondendo uma pergunta. Novo som grotesco. Persigal se volta para o lado oposto das pessoas e responde grunhindo. Deixa as pessoas completamente e se volta para o fogo.)

PERSIGAL – A vida declara seu amor na existência do corpo fétido. Tento chorar, mas sinto os olhos enxutos. A forma não tem importância, é o fundo que conta. Nada é gratuito neste mundo. Tudo se paga, o bem, assim como o mal, cedo ou tarde se paga. O bem é muito mais caro… Necessariamente…

“(…)Acostumei-me, assim, pois, a sofrer

E acostumado a assim sofrer existo…

Existo! – E apesar disto

Inda cadáver hei também de ser!

Quando eu morrer de novo, amigos, quando

Eu, de saudades me despedaçando,

De novo, triste e sem cantar, morrer,

Nada se altere em sua marcha infinda

–         O tamarindo reverdeça ainda,

A lua continue sempre a nascer!”

(Persigal pega o saco e sai. Pessoas conversam sobre futebol enquanto a luz vai apagando…)

HOMEM 1 – Não adianta escalar três zagueiros, camarada. Já viu zagueiro saber fazer gol? Só faz na cagada…

HOMEM 2 – Mas o time vai entrosar. Aí eu quero ver quem vai nos segurar…

PERSIGAL – (grita de fora da cena) Vamos celebrar!!!

FIM

Este texto é uma colagem, “baseado” em vários outros textos, inter-textualizando-os para outro fim. Os textos utilizados, ora como trechos citados, ora como influência direta:

  • Persigal, de Neander Cortez,
  • Cenas da Penitenciária (conto) e Notas de um velho safado, de Charles Bukovski,
  • Morte a Crédito e A vida e a obra de Semmelweis, de Cèline,
  • Falas a Dioniso em crise, de minha autoria, diversos fragmentos de poesia grega e latina e
  • alguns poemas de Augusto dos Anjos, inclusive o poema Dolências, que dá nome ao texto e é declamado pelo personagem.

Hilam A na Grama

Compilador

Livro x Computador ?

livro

 

            Responder à pergunta “O computador acabará com o livro?” requer um mínimo de espaço para um eloqüente “não”. Requer um pouco mais de tempo e precisão para certificar-se de que a resposta não é utópica ou precipitada. O registro através de livros só se tornou possível após a “imprensa de tipos móveis” de Guttenberg, por volta de 1450. Mas os homens sempre se preocuparam em registrar suas causas (feitos) e efeitos, pois assim fixa seu domínio no planeta.

            O cérebro, mesmo sendo brilhante, um dia se apagará. Era, e ainda é preciso transmitir as experiências, para garantir às próximas gerações que não precisarão começar do zero, tudo de novo, pois já contam com um terreno fixo, onde poderão pisar e construir seu futuro. É o que denomino cultura, essa possibilidade de transmissão, quase genética, de uma base de conhecimentos, suficiente para darmos uma boa pirueta no tempo e no espaço, implantando nossa cultura humana tridimensional.

            A cultura oral surgiu como primeiro baluarte da transmissão do conhecimento entre os homens. E o homem sempre dispôs de todos os meios possíveis e imagináveis para registrar sua cultura, e a oralidade parecendo pouca e casual, foi sendo incrementada pela simbologia; primeiro desenha, depois codifica, facilita o pensamento através do som, da imagem e da educação. A linguagem é algo esplendoroso na raça, e a linguagem escrita é algo que os franceses denominam terrific.

            Agora imaginem um futuro bem próximo, e infelizmente possível, onde não há mais livros, a não ser textos em telas de computadores e outras máquinas.  É um caminho cada vez mais seguido, escolhido até, por editores e escritores. Um caminho normal, uma tendência do nosso ‘mercado’. Até com a boa desculpa de pouparmos recursos cada vez mais escassos, como as árvores. Muitos produtos poderão ser inventados e comercializados e aumentará a demanda e a produção. Há muito a arte e a cultura passaram a ser caras mercadorias…

            O mesmo controle moderno, conservador do poder e no poder, continuará sendo executado, pois alguns sempre escolhem o que todos vão ler. Por quê banir os livros e outras formas de registro da cultura humana poderia ser tão danoso? A pergunta mais rápida que consigo bolar como resposta é: e se não houver mais energia elétrica, como buscaremos o conhecimento necessário? Claro que não poderemos nunca banir os registros fora do computador. Nenhuma dessas máquinas é tão segura e não podemos colocar, ainda, nosso futuro e de nossa descendência, nos frágeis transistores destas máquinas. Haverão, certamente, lugares especializados em manter nosso registros, a não ser que não se queira mesmo é garantir o nosso futuro…

            A pior coisa que pode acontecer hoje em dia, a um estudante, professor ou profissional, é ficar sem acesso às informações que necessita para desenvolver seu trabalho. Há vários exemplos na história, sobre como alguns loucos destruíram bastante fontes de informação, queimaram bibliotecas, e faziam fogueiras nas ruas, com livros e escritores. Hoje não se concebe mais este tipo de mediocridade, mas não podemos negar que é uma ‘atitude’ constantemente tomada, mesmo que velada, pela possibilidade de respondermos ‘sim’ à questão principal deste texto e querermos deixar tudo nas máquinas e nas mãos de quem as controlará, certamente.

            Outra coisa que não podemos esquecer é que arquivos de computador podem ser apagados, modificados ou escondidos, dependendo de quem está administrando essa rede de conhecimento, quem tem o controle. E é o controle perfeito, que tanto se esperava, tornando-se cada vez mais possível, acessível ao dirigente. Padronização mental, dirigida por alguns administradores do sistema, dirigidos por alguns poderosos políticos, dirigidos por alguns poderosos ‘mercadores’. Parece bem plausível e humano, além de muito moderno.

            Não temos acesso a esta informação, precisamente. Quem? já hoje nos controla, estabelecendo caminhos educacionais e privilegiando uma sub-espécie corrente de pensamento? Que tipo de pensamento temos, decorrente de nossa educação de há 50 ou 100 anos? Mas a escrita e os livros, e também hoje a Internet, e outras formas utilizando o computador, permitem a existência e a convivência do pensamento divergente, primordial para não deixar morrer o espírito humano do homem.