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Maldade em Aparência

Maldade em Aparência

“Maldade ou malitate é substantivo abstrato. Sim, porque o homem não consegue vê-la e somente aos resultados de sua aplicação. O homem, animal racional por excelência, de caráter bom, extrai da natureza os substantivos abstratos. Entre estes estão a bondade e a maldade, substantivos estes que criam a esfera cognitiva perfeita para o homem primitivo, limitando-os a desdobrar as conseqüências da vida cotidiana em classificações duálicas.

O que o homem sempre rotulou como mal é justamente aquilo que atenta contra seu prazer ou sua saúde, incluindo aí a própria sobrevivência. Para registrar a limitação deste método cognitivo, podemos citar como é fácil manipular em grandes populações novos prazeres e novas doenças, com seus respectivos preços e remédios. A maldade aos poucos se traveste de pura ingenuidade. E é incorporada como inocente.

E talvez seja este o poder da bondade! Rarear ou dificultar a maldade, até, quem sabe, fazer desaparecê-la, mesmo que incorporando-a de tal forma na matéria, que nada nela tenha resquício de mau. Mas sempre restam as idéias… Os homens ainda conseguem manter sua maldade incorpórea intacta e protegida por milhares de teorias. E basta uma pequena chance, em que tenha de matar para salvar, e ele o fará com prazer renovado.”

Jan pensava estas coisas ainda na cama, muito sonolento ainda, na vigilância de ter que acordar cedo. Tinha marcas de prazer, seus e de Jana, espalhados por todo corpo. Vivia o apuro de espreguiçar-se e não acordá-la. Ela era linda ainda, dormia nua, com as ancas empinadas para o lado dele. E ele abraçou-a alguns instantes.

“Ah, como eu adoro te abraçar por trás! Sinto uma punção no âmago do ventre, querendo recolher-te dentro de mim! E a marca do meu desejo é rápida e cresce espantando a abertura e tornando-se garra… Quero abrir-te em duas e extravasar-me para o buraco.

O prazer de morrer deve ser muito parecido com o prazer de matar. Qualquer sofrimento que venha trazer a morte como consolo é preferível a um sofrimento eterno. Matar é um consolo para os que morrem e uma obrigação para os que matam. Não vejo a hora de cumprir algumas obrigações. Entrar para a Polícia, quem sabe. Defender nossa sociedade contra os desafetos imundos que querem pegar minha Janinha…”

Jana foi acordando devagar, sentindo aquele gancho enorme em suas costas. Adorava quando ele fazia aquilo; dava pra ver pela sua expressão. Arfava e abria a boca ao mesmo tempo que abria e fechava o colo e as pernas. Era uma mulata linda, toda durona, vinte e poucos anos, cabelo curto, seios perfilados como de frutas empinadas, Ah, e o colo da mulher! Era aveludado, feito especialmente para colocar-se a cabeça e depois roçar a boca anestesiada pelo desejo. Que Jan não me ouça, mas ela era uma mulher incrivelmente bela para ele. Estavam morando há pouco tempo juntos, não passava de seis meses. Não tinham filhos, Jan ganhava sem trabalhar e eles viviam passeando, para transar em lugares que não fossem sua casa. Mas era inevitável que isso também acontecesse na intimidade do quarto abafado, o ventilador ligado, os corpos suando…Maldade em Aparência

“Isso, Jana, você está encaminhando-me entre tormentosas vagas para o esconderijo seguro! Ah, mulher fogosa, nem parece satisfeita de ontem. Aí. Encontrei. Você mexe maravilhosamente. Como são doces as tuas coxas e essa bunda que me é travesseiro reconfortante! Queria ser capaz de levitar para não fazer-te peso algum, e me sentirias apenas a lança.

Ainda ontem senti ódio daqueles meninos de rua que rondavam-nos no ônibus. Disseram depois que cheiravam cola no último banco do ônibus vazio. O cobrador jogou a cola do lado de fora do ônibus e os meninos correram para a frente do ônibus, saltando a catraca. O motorista abriu a porta e expulsou os moleques do ônibus. Os comentários já eram desaforados, mas eles ainda atiraram um coco seco no ônibus e ouvi comentário de uma senhora idosa: “Instinto ruim!”. O motorista ainda disse: “Quando o motorista dá-lhes na cara, é porque não presta!”. E meu ódio é maior porque eles te chamaram a atenção e te fizeram temer por segurança…”

O espetáculo era digno de uma pornografia: ela quase em posição uterina e ele deitado em duas almofadas, para conseguir alcançar-lhe com menos esforço. Movimentos ora moderados, ora insanamente rápidos. Era belo o balé que Jana fazia para que a lança lhe tocasse a flor. E quando isto acontecia, ela apertava as pernas, para conseguir maior prazer. Ele não parava de se mover e de beijá-la por todos os ângulos, gemendo um pouco a cada aproximação do gozo. Ela, de tanto esforço, conseguira imantar a flor, de forma que a espada não despregava dali de jeito nenhum. Chegaram praticamente juntos ao êxtase, e juntos, dormiram por mais alguns minutos.

“Como posso pensar sequer em perder essa disponibilidade prazerosa que a vida me reservou. Amo tanto esta mulher e ela me fará feliz! Não vou mais me encontrar com a Jina, não posso continuar traindo Jana, que me ama tanto. E eu a amo também!

Jina foi uma aventura perigosa e febril. Mulher fogosa, ainda que casada, que sacou de todas as suas armas para me prender em sua rede. Queria um amante da minha qualidade, dizia, o marido não lhe dava atenção, não lhe dava prazer como eu. Além do mais, eu era discreto, o que facilitava nossas vidas. Bastaria continuarmos a demonstrar nossas paixões em lugares reservados com antecedência, para prevenir qualquer surpresa desagradável. Mas, de minha parte, cansei do corpo daquela mulher sempre quente. Com ela tinha que bater-me muitas vezes, e chegava extasiado em casa, o que não me permitia manter com normalidade minhas relações com Jana. Acabou.

Agora, via Jina com pouca freqüência, mas sempre guardava um resto de saudade quando voltava para casa. É uma mulher espetacular, diferente de Jana, e isso começa a me fazer duvidar de mim mesmo, dos meus sentimentos. A algum tempo isso já me perturba demais. Vou deixar Jina definitivamente.”

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Persigal dormente

Há quatro horas que ele andava sem parar. Tentava pensar coisas simples, que não precisassem de nenhuma explicação. Mas a maioria das coisas são tão complexas que não nos permitem comiseração. Os pés doíam…

Permitiram-no ao menos escorrer pelo campo, cruzar as linhas de cal e contornar os obstáculos. Precisava mesmo esclarecer e levar às últimas conseqüências. Pisar pedras, caminhar sobre pés dissecados…

O sol a pico traz lembranças inequívocas das saudades; impressões tumulares não são pouco para o clima que jorra, querendo suplantar qualquer trauma que florescesse.

Embora a tristeza ocupasse inteiramente o limite petrificado da glória, queria que tudo voltasse atrás, tudo como era antes. Nada parecia voltar, tudo continuava como era antes. Ele queria sumir mas não conseguia…

Ele queria ouvir estórias que o levassem ao delírio, queria saber mais do que poderia apreender; é tudo uma questão de ver, mais ou menos. Tudo parece ruir, o som do declínio estonteante, o cheiro do desejo; básico como a morte fácil, sem auxílio externo…

A maratona continua, indesejável porque sofre-se correndo por estímulos desconcertantes. Perde-se muito quando não se sabe realmente o que está acontecendo. Ainda que o azul atormente os últimos instantes, não poderia ainda cair pelos cantos, para desvendar a melancolia anunciada.

Doenças graves, dietas rigorosas, desejos totalmente proibidos. Pensando numa xoxota apertada e quente, ele deixa-se cair no chão sala, fria, cerâmica; mas as voltas e os rolos que ele percorre esquentam sua imaginação…

Quando acorda está no meio-fio, impregnado de um sentimento feliz. Está todo molhado porque chove. E se demorasse mais, quebrava as costelas naquele escorrego onde bateu a cabeça. Tem gente que é um poço de memória, mas ele não lembrava quase nada…

Percebe que a noite chegou e a baba escorre pelo seu rosto. Lembrou quando a lâmina fria desceu, de cima a baixo, entre seu peito esquecido e o braço dolorido. Cortado ao meio como um queijo, um pedaço de goiabada… Sangue, carne fresca, cabelos soltos esvoaçando.

Faltava-lhe o costume de morrer. Achava realmente que a vida era dele, não tinha receio em ferir-se pois mandava naquilo ali; mas a visão esvaindo fê-lo perceber que perdera o controle sobre tudo. Começou a prever a vingança de um deus obtuso. Isso, só podia ser…

Amontoados de braços, pernas e vozes tiraram-no do estado delirante em que se encontrava, mas não totalmente, claro. Ainda persistia um certo zumbido vago, como um discurso de culpa anterior ou moscas ao redor de um ventilador.

Foi arrastado para um banho frio. Chorava. Mas não sabia se o que molhava seu rosto era a água impiedosa ou o seu rio de lágrimas interno, que parecia jorrar como de fonte inesgotável; não conseguia ficar de pé e deixaram-no caído num canto.

08.07.2001

Rubem Fonseca – Livro de Ocorrências

 brutamontes

Livro de Ocorrências

Rubem Fonseca


1.

Investigador Miro trouxe a mulher à minha presença.

Foi o marido, disse Miro, desinteressado. Naquela delegacia de subúrbio era comum briga de marido e mulher.

Ela estava com dois dentes partidos na frente, os lábios feridos, o rosto inchado. Marcas nos braços e no pescoço.

Foi o seu marido que fez isso?, perguntei.

Não foi por mal, doutor, eu não quero dar queixa.

Então por que a senhora veio aqui?

Na hora eu fiquei com raiva, mas já passou. Posso ir embora? Não.

Miro suspirou. Deixa a mulher ir embora, disse ele entre dentes.

A senhora sofreu lesões corporais, é um crime de ação pública, independe da sua queixa. Vou enviá-la a exame de corpo delito, eu disse.

Ubiratan é nervoso mas não é má pessoa, ela disse. Por favor, não faz nada com ele.

Eles moravam perto. Decidi ir falar com Ubiratan. Uma vez, em Madureira, eu havia convencido um sujeito a não bater mais na mulher; outros dois, quando trabalhei na Delegacia de Jacarepaguá, também haviam sido persuadidos a tratar a mulher com decência.

Um homem alto e musculoso abriu a porta. Estava de calção, sem camisa. Num canto da sala havia uma barra de aço com pesadas anilhas de ferro e dois halteres pintados de vermelho. Ele devia estar fazendo exercícios quando cheguei. Seus músculos estavam inchados e cobertos por grossa camada de suor. Ele exalava a força espiritual e o orgulho que uma boa saúde e um corpo cheio de músculos dão a certos homens.

Sou da Delegacia, eu disse.

Ah, então ela foi mesmo dar queixa, a idiota, Ubiratan resmungou. Abriu a geladeira, tirou uma lata de cerveja, destampou e começou a beber.

Vai e diz para ela voltar logo para casa senão vai ter.

Acho que você ainda não percebeu o que vim fazer aqui. Vim convidá-lo para depor na Delegacia.

Ubiratan atirou a lata vazia pela janela, pegou a barra de ato e levantou-a sobre a cabeça dez vezes, respirando ruidosamente pela boca, como se fosse uma locomotiva.

Você acha que eu tenho medo da polícia?, ele perguntou, olhando com admiração e carinho os músculos do peito e dos braços.

Não é preciso ter medo. Você vai lá apenas para depor. Ubiratan pegou meu braço e me sacudiu.

Cai fora, tira nojento, você está me irritando.

Tirei o revólver do coldre. Posso processá-lo por desacato, mas não vou fazer isso. Não complique as coisas, venha comigo à Delegacia, em meia hora estará livre, eu disse, calmamente e com delicadeza.

Ubiratan riu. Qual é tua altura, anãozinho?

Um metro e setenta. Vamos embora.

Vou tirar essa merda da sua mão e mijar no cano, anãozinho. Ubiratan contraiu todos os músculos do corpo, como um animal se arrepiando para assustar o outro, e estendeu o braço, a mão aberta para agarrar o meu revólver. Atirei na sua coxa. Ele me olhou atônito.

Olha o que você fez com o meu sartório!, Ubiratan gritou mostrando a própria coxa, você é maluco, o meu sartório!

Sinto muito, eu disse, agora vamos embora senão atiro na outra perna.

Pra onde você vai me levar, anãozinho?

Primeiro para o hospital, depois para a Delegacia.

Isso não vai ficar assim, anãozinho, tenho amigos influentes.

O sangue escorria pela sua perna, pingava no assoalho do carro. Desgraçado, o meu sartório! Sua voz era mais estridente do que a sirene que abria nosso caminho pelas ruas.

Conto extraído do livro “O Cobrador”, Ed. Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1979, pág.127