Falas a Dioniso em crise

         Lá pelos idos de 1997 o Jornal da Tarde, através de uma jornalista que não lembro o nome (Ruth …), comentou (negativamente) esta peça de loucura que seguirá. É um poema longo, dividido em nove partes, cheio de neologismos e parêntesis. Se bem me lembro, a Ruth não gostou dos neologismos que eu uso no poema. Fiz uma revisão/atualização, mas não mudou nada na essência… É uma das loucuras de que mais gosto! Tome fôlego e boa leitura!

I

Chorando

    Páginas não riscadas, muros não pichados,

    paredes sorvidas em tintas unicores,

    paisagem verde encostada na parede,

    número nove paredes pintadas por

    crianças multicoloridas que se

    extravasam à parede e tecem-lhe

    veias disformes e lamentando

    o pouco sangue que lhes percorre

    e como desejariam voar e tolher

    ao espírito o vento mais alto.


    Crianças choram, paredes choram,

    lágrimas desusadas fecundam

    óvulos dissolvendo-se, evaporando-se

    à temperatura da superfície e

    enervando a eletricidade dos dedos;

    escuta: dispara a seta e atingirás

    o alvo. O que se pensa não se

    determina. Termina tua estada

    com glória e boa companhia.


    Ecoam belos risos e os vejo

    debocharem e persuadirem-se. . .

II

Louco

Deixe tocar tua mão . . . Apega-me

o teu calor. E agora que estou

agonizando, verto-me em frio

e luz opaca, rapto-te da memória,

desmancho-me e desmancho-te

em éter de outrora e agora

ficar acordado, agora permanecer

e ser longe de ti, éter comum!

Deixar-te é enfim um máximo de

beleza: agora és bela como os cegos

a vissem pela primeira vez: és tu

e não-eu, és a mim e a ti juntos.


Ainda és e eu não sou mais que

isso: eu e tu. Despeço-me antes

que despedace-me a visão que

elegi como última: a que eu

realmente não vi . . .

III

Bobo

O que perturbaria a tua consciência,

nesta tarde, neste minuto vesperal,

nesta canção, o que te perturba?


Serão lembranças a te perturbar,

a afastar de ti a felicidade,

será o passado tão pesado que

não possa ser posto de lado

para o presente, tua memória

te esfacelando a felicidade?


De que vale a vida, cheia de símbolos diversos,

se quem vale a vida é cheio de símbolo-fixo?


Expõe o passado à sua podridão e

à sua morte e verás como foge.

Paraste de pensá-lo e já escutas!


A música harmônica do vazio pe-

netra em ti para esvair-se e

repenetrar a tua energia nos

cúmulos e cônscios onipresentes.

IV

Proteção

Se um dia precisar de proteção

contra o frio, já tenho o tapete,

que comprei no Seixas. Deus

me fez assim, Dioniso, procuro

sempre me converter, prezo saber/sabor

acima de tudo e todo ter ou

fazer. Prefiro a autenticidade

no homem e admiro nele sua

loucura lúcida ou sua louca lucidez.


Sabe lá como não se faz o quê

constituir-se como não é ou é,

sendo assim ou não sendo assado.


Ninguém necessita minha proteção,

visto que cada um deve se proteger

sozinho; até eu não quero exércitos.

Se comprares algo, terás feito nas mãos.

Terás uma imagem nova para idolatrares . . .


V

Adão filho

Definitivamente eu sou um mutante;

não posso conter em mim o Adão que

compraz-se ao ver a humanidade reinar,

quebrando degraus, saudando novas vias,

ao mesmo tempo que ruge a tradição

e amamos a tradição mais que tudo

ao esfumaçá-la e torná-la nova

tradição que não susterá sequer um

grande ser que se movimenta, que

soluça por todo o Bem consumado

por si e por Tao, por mim e

por ti. Reina homem, mas conhece teus

estragos miseráveis! Não podes manchar

tua humanidade com tão vil chaga!


Espera a embriaguez benévola, pacífica-guerreira.

A estupidez da desordem organizada.

A ens vitae torna-se, o homem

torna-se, cada célula faz-se e

somos construídos para construir,

destruindo as velhas tábuas,

simbolizar o movimento, o moto-

-contínuo, Dioniso.

VI

Diana

Sinta-me: levemente esvoaço o tempo ao teu redor;

neste instante não me vês, mas estarei aí a roçar

tua pele e beijar teus cabelos, estarei agora

planejando uma visão desvirtuadamente divina, tuas

mãos praguejam moscas impertinentes e me acaricias,

sem o saber, o vento que te rodeia é meu.


Oh! Diana, que mataste Actéon por ter-lhe visto a beleza,

o que não farias se soubesses que tens um vigilante

cósmico, uma sentinela de tua respiração ofegante.

É a viagem, movimento, a melhor parte; ser

‘ ‘ companhia incesta amabilíssima elétrica ácida salutar ‘ ‘


Se olho o céu, se olho mesmo o céu, sol ou noite,

realmente não te vejo, mas vejo-te ao meu lado,

não na Lua, teu maior espelho celeste, Deus;

vejo-te aqui como eu concentrado em ti e

cheirando tua pele, nessa carícia que ma faz

um vento que rodeia minha amada, Deusa.


Toque-me, veja-me ao vento que esvoaça teu ins;

éter-me-ei para sentir saudades do que não vi,

furtar-me-ão os sentidos, atolar-nos-ão no

racionalismo-idealismo, mas nunca a memória terá

sido importante, ¿nunca verei de novo o novo?


Ésse, essa letra sibilante, ssss, como o ser

‘ ‘ novo atuante tórrido actus purus Adam filho ‘ ‘.

VII

Linda

Talvez não seja sincero; pensar em ti tão cedo pode ser

uma deslavada coreografia da minha mente, que te deseja

próxima, que me permite acordá-la de madrugada, e

dentro do teu sonho, dizer que te amo. Não,

não pode ser sincera, esta vontade que, rasgando

o peito imberbe, sangra-o facilmente à distância,

de te tornar companhia hodierna e na tua pre-

sença devo permanecer escutando o estrondo dos

vulcões sob teu calor, devo permanecer calado,

nessa extrema angústia que quer me levar por

baixo de tuas roupas, quer colar-me à tua pele.


Estás longe, perdida e vaga lembrança, cada vez mais

longe. Mas! como fazes, se não te esfumaças em

minha vã memória? Não consigo te matar-em-mim?

Não te amo sinceramente, estás longe, eu invento

uma doença que me matiamorte, sangro indiscreta-

mente, mas! como faço para esfumaçar-te em minha

vã memória? E se não estiveres só aí? E se dominas

algo em mim, algo que não pode ser chamado vão?


Mas pensar em ti tão cedo só poderia terminar confundindo

a mim e acordando o vizinho, para escutar-te a música.

O fato não foge à tendência tradicional de sonhar

a noiva antes do casamento, ou querer mais das

bebidas bacantes ou do néctar divino ou apenas lembrar que

há pouco nasceu o sol, já ontem choveu, há muito não

quero tanta solidão, me dói pensar-te e não tocá-la,

por isso te farei uma estátua; desejo adorá-la,

enquanto estás                             longe.

VIII

Criança

Ah! criança selvagem brilhando no meio-dia, nuestra vida.

Rasgarias meu coração, adoçarias minhas entranhas e

sacrificarias-me a algum Deus cruel, sangüentino.

Emprestarias minh´alma como virtude ao Deus solar,

meu inimigo humano, meu pólo destruidor, meu degelo,

a morte dos meus amigos e amigas, varão coloquial.


Eu posso ver do vão pórtico teu fulgor, usurpo a ti

a energia que movimenta o vento e o círculo;

¿podes ser maior? Do tamanho de um pé, ¿podes

insignificantizar-me? Podes deixar teu fulgor, Deus?

Um sempre-pronto, o semi-pronto-círculo, proto-Deus.


Gravitas sobre mim, chegas-me à necessidade, sabes-me.

Teu sopro me acorda, teu vento quente me cerca e

desalmado arranca epidermes, leva-as de mim, o

que não me possui, livra-me do frio, tirando-me.


Teu corpo suado liberta o meu, teu trabalho duro,

meu corpo semeado em tuas entranhas, os frutos

sorvidos com ardor nas fartas mesas. E exangues

olhos com fome de sangue, sugerindo-lhe o divino.


A última crueldade que me permito é a aurora,

que dizes tão fria, e eu que faço referências

às horas e lidas distantes, tu que me caças e

me fazes guerra, que não acreditas na inocência

e ingenuidade aflita do meio-dia do Deus.

IX

Sacrificio

A virtude do Deus agonizante é o esquecimento,

a virtú dormideira, a chacina dos últimos neurônios

e a beleza (estética) que se consegue apreender, então.

Nem bem nasceu, já sou um Deus-morto, acorrentado

ou crucificado pela infâmia, a inveja do Olimpo,

assalta-me o esquecimento e a beleza final.


Medo, medo, o Deus agonizando não sente medo,

não pode perder-se, não é virtude sua ter,

nem sequer geme tão alto, não é necessário;

tem todas as paixões contidas num olhar, viveu

suas atividades como conduziu o filho ao lar;

assim devoradas, as horas cortam pulsos, púcaros.


¿Nem ao menos piscas este olho cruel, não ao menos

perceber tua dor? Não sinto dor alguma, penso

uma dor maior e regozijo agora, permaneço

calado da minha alegria, continuo atônito frente a

última respiração. Já estava enterrado. Acordei

dentro de um enorme caixão que mal me continha.


¿Careces o último verso? Virás com sublimidade,

beijar-te-ei a face, lembrando-te do encontro

marcado comigo, logo mais à véspera do sol.

Não partirás impunemente, mais um inocente morto:

a pedra te chorará, a chuva te lamentará e levará

as cinzas das vestes de minha amada; brotarás então.

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Sobre hilam

Ainda em processo de construção humana, mesmo com mais de 40 anos de idade...

Publicado em 14/11/2008, em Poesia. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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