Persigal dormente

Há quatro horas que ele andava sem parar. Tentava pensar coisas simples, que não precisassem de nenhuma explicação. Mas a maioria das coisas são tão complexas que não nos permitem comiseração. Os pés doíam…

Permitiram-no ao menos escorrer pelo campo, cruzar as linhas de cal e contornar os obstáculos. Precisava mesmo esclarecer e levar às últimas conseqüências. Pisar pedras, caminhar sobre pés dissecados…

O sol a pico traz lembranças inequívocas das saudades; impressões tumulares não são pouco para o clima que jorra, querendo suplantar qualquer trauma que florescesse.

Embora a tristeza ocupasse inteiramente o limite petrificado da glória, queria que tudo voltasse atrás, tudo como era antes. Nada parecia voltar, tudo continuava como era antes. Ele queria sumir mas não conseguia…

Ele queria ouvir estórias que o levassem ao delírio, queria saber mais do que poderia apreender; é tudo uma questão de ver, mais ou menos. Tudo parece ruir, o som do declínio estonteante, o cheiro do desejo; básico como a morte fácil, sem auxílio externo…

A maratona continua, indesejável porque sofre-se correndo por estímulos desconcertantes. Perde-se muito quando não se sabe realmente o que está acontecendo. Ainda que o azul atormente os últimos instantes, não poderia ainda cair pelos cantos, para desvendar a melancolia anunciada.

Doenças graves, dietas rigorosas, desejos totalmente proibidos. Pensando numa xoxota apertada e quente, ele deixa-se cair no chão sala, fria, cerâmica; mas as voltas e os rolos que ele percorre esquentam sua imaginação…

Quando acorda está no meio-fio, impregnado de um sentimento feliz. Está todo molhado porque chove. E se demorasse mais, quebrava as costelas naquele escorrego onde bateu a cabeça. Tem gente que é um poço de memória, mas ele não lembrava quase nada…

Percebe que a noite chegou e a baba escorre pelo seu rosto. Lembrou quando a lâmina fria desceu, de cima a baixo, entre seu peito esquecido e o braço dolorido. Cortado ao meio como um queijo, um pedaço de goiabada… Sangue, carne fresca, cabelos soltos esvoaçando.

Faltava-lhe o costume de morrer. Achava realmente que a vida era dele, não tinha receio em ferir-se pois mandava naquilo ali; mas a visão esvaindo fê-lo perceber que perdera o controle sobre tudo. Começou a prever a vingança de um deus obtuso. Isso, só podia ser…

Amontoados de braços, pernas e vozes tiraram-no do estado delirante em que se encontrava, mas não totalmente, claro. Ainda persistia um certo zumbido vago, como um discurso de culpa anterior ou moscas ao redor de um ventilador.

Foi arrastado para um banho frio. Chorava. Mas não sabia se o que molhava seu rosto era a água impiedosa ou o seu rio de lágrimas interno, que parecia jorrar como de fonte inesgotável; não conseguia ficar de pé e deixaram-no caído num canto.

08.07.2001

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Sobre hilam

Ainda em processo de construção humana, mesmo com mais de 40 anos de idade...

Publicado em 29/11/2007, em Arte, Poesia, Prosa e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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