Cuspir na própria pele…

ninho
“…o lar do passarinho é o ar e não o ninho…” Gabriel o Pensador

tem muito cachorro branco louco, mastigando ossos
negros, restos mortais de um cabra, marcado para
morrer no melhor estilo humano, na melhor hora
de morrer e renascer, como nosso cristo na páscoa.

para sair, nada melhor que dar duas, ou dois,
para reconhecermos nossa pista no mato, para
divulgarmos nossa loucura no mais alto grau;
e se eu fumo, bebo mais, quebro mais a cintura…

ninguém em casa, ninguém na rua, espreita a esquina
para não haver surpresa, para não nos catarem a
honestidade pura, não nos castrarem com duplos
alicates crocodileanos, mascarem nosso cérebro.

não havia mais que uma voz rondando a tristeza,
não mais que um ouvido transpirando karmas inconse-
qüentes, capilosa redoma de gosto secundário;
há alguém em casa, alguém aí? nobody home…

certamente agora estão nos esquecendo por menos,
estarão nos descrevendo: jovens negros, brancos
de pó, redomados com coura plástica fibrosa, que-
relando poucas bagagens de metal semi-precioso…

charles anjo marrom, que se aproxima de mim em
plena madrugada, que trazes no bojo de teus
sentimentos ambíguos? que fazes para esquecer
a extrema injustiça desse nosso mundo cruel?

e se eu fosse branco gostaria de me pintar,
me transformar num jovem negro branco ou melhor,
num velho branco negro, que cospe na própria pele,
que subjuga forças antagônicas e corrompe espíritos

mais jovens e mais maduros, mais amarelos, mais
marrons, mais negros… quisera cheirar como um
espírito adolescente, mas trago comigo o mau
cheiro da pele apodrecida pelo tempo, pela cruel-

idade dos espíritos semi-humanos que povoam a terra
que habito, com hábitos seculares, com cargas
semióticas e esquineadas embaixo de pau e pedra,
a pancada de bombo e por trás dos biombos de gelo.

pra ganhar o pão nosso de cada dia, me viro em dois,
e ao mesmo tempo que trabalho no escritório, meu
duplo pede esmolas na frente da melhor igreja, na
catedral dos esforços sentimentais do homem médio;

este da terra média, que não é aqui nem lá longe, é
embaixo do pé de Aquiles, fraqueza que nos corrompe
como os vírus influenza, como uma ode grande ou um
réquiem a mim mesmo, que gostaria de me matar mas

não consegue ser menos que intruso neste mundo vão;
vámonos, não deixemos aos vermes nossos despojos,
queimemos até as cinzas para que não relaxem sobre
nossos restos, ou se, que sejam contaminados por eles…

“…e como só tenho sete vidas, duas são muitas pra perder…” Marcelo Nova

Hilam 11.04.2004

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Sobre hilam

Ainda em processo de construção humana, mesmo com mais de 40 anos de idade...

Publicado em 13/10/2006, em Poesia. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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