Experienza

2009 Agosto 4
por hilam

led-zeppelin

Primeira hora, zepelim de chumbo

ao longo do vigésimo sétimo minuto
vejo um sorriso feminino e hindu
enquanto escuto a melhor música do
mundo todo, zepelim de chumbo, o zep

me condena ao tributo, ao culto; quase
nada me ocupa, nem vê-los, é certo, mas
quando me surpreendem numa tarde qualquer,
é como se eu vivesse cada minuto naquele ritmo.

é como se eu ouvisse essa música o tempo todo!
e não é ainda o meu inferno, longe disso.
é quase de minha própria natur(al)eza;
jokerman, dançarino da noite, escadas.

ir e voltar, saltar, gemer e sorrir, cruzar
por sob(re) águas, diversas cores, longas
profundidades, nenhum receio de se perder,
em alguma ventania, fazer de conta que as

coisas acontecem, simplesmente acontecem,
com se acontecer fosse diferente de viver
ou respirar, devia ser prosa? será que
conteria a mensagem mesmo assim? será que eu poderia viver?

que tesouros temos e não reconhecemos,
o que significa sonhar? porque navegar
cada vez mais longe? a resposta está no
vento que bate no rosto, se estiver exposto.

a pergunta também é o vento que bate,
não é o copo de bebida, não é o fumo,
não é você sozinho, escrevendo pra quê?
no fundo de tudo está esta música…

vida elétrica, dependente de energia,
seja ela de origem qual, emocional,
solar, eólica? e onde entra o vento?
vida que se apaga à extinção da luz.

que sejas o meu deus Maior, energia
que me moves; criatura meramente
desastrosa, quebrada em cantos, em
cacos de matéria podre, vida que

surge da própria extinção, que vício
será esse, cruzar as montanhas a cavalo,
respirar uma breve chuva, meu deus, rompe
meus pulmões de tamanha esperança, ilusão

plena de pulmões; quando devo começar
a gritar? onde dói mais? o pescoço rijo,
a mão que treme, a postura líquida,
o mijo fedendo muito pelas manhãs…

decidi celebrar a vida porque da morte
não há sabedoria alguma. preciso rever
o que há para resistir à tentação de,
simples assim, minimizar a nossa dor.

07/07/09

Dolências

2009 Agosto 1
por hilam

Baseado em fatos (ir)reais

Cenário:

-         Quadros com figuras grotescas

-         Um fogareiro aceso

-         Jornais, garrafas, latas

Personagens:

Persigal

Homem 1

Homem 2

Ato Único

(Entra Persigal, um sujeito velho, capengando, segurando um cajado numa das mãos e um saco cinza-preto na outra, tipicamente o mendigo-eremita moderno)

PERSIGAL – Não há saída! Eu firo duramente aqueles que me ferem… E o larvário da cidade cresce, igual a um parto, um grande feto que vem substituir a espécie humana! TARA BUBA COME, TARA BUBA CAGA. E a morte é realmente um tédio, realmente um tédio…

(Ele grita, reza, e tira de dentro da roupa, próximo ao coração, um grande chumaço de algodão embebido de sangue cênico. Coloca o algodão dentro do saco e começa a rir descontroladamente. Ri. Do seu saco cinza-preto saltam duas pessoas.)

HOMEM 1 – Mas que calor dos diabos está fazendo! Eles nunca nos deixarão dormir até que estejamos mortos e então eles pensarão em algum novo truque…

HOMEM 2 – Experimentando a confusão da liberdade, você devia me pagar uma bebida gelada, não acha?

HOMEM – Acho a vida vagamente interessante, ao invés de realmente aterradora. Você viu as notícias ultimamente?

(As pessoas conversam sobre as notícias. Futebol, guerra, assassinatos. Não notam a presença de Persigal sob hipótese nenhuma. Enquanto isso, Persigal ri. Ainda rindo, chuta algumas latas, se aproxima do fogareiro e pára como que por respeito. Tocam sinos, ele se coloca frente ao fogo, olhos postos no chão, o corpo balançando como se fosse um pêndulo. Luz branca e forte em cima dele.)

PERSIGAL – Eu venho me sentindo estranho ultimamente, quase como se estivesse ficando louco. Essa luz, rouba de mim as chaves da prisão e eu morro! Como as folhas que brotam na primavera e crescem rápidas à luz do sol; e quando passa a plenitude desse tempo é melhor morrer do que viver!

(Persigal solta o cajado e cai de joelhos, em cima do saco. Ele deverá encenar um parto [ou uma cagada], tirando de dentro do saco o manto embassado [o filho ou a obra]. Luz ameniza.)

HOMEM 1 – Viu o que aqueles árabes loucos estão aprontando? Também aquele povo não pára de guerrear?

HOMEM 2 – Eu achei muita cara-de-pau eles derrubarem aquelas torres. Deixaram o Bush com cara de peão…

PERSIGAL – Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.

(Riem todos juntos.)

PERSIGAL – A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável. Quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.

Ah, meus pés de puro carvão! Estou como o tempo, pousado nas calçadas! Paz de todos os esquecimentos…

Homem mortal, não queiras predizer o que o Amanhã trará. É rápida a mudança… Pequena é a força do homem, vãos os seus cuidados; para nós, em vida curta, só existe fadiga após fadiga…

(Luz aumenta. Persigal levanta, tira restos de comida e bebida do saco e começa a dançar e festejar. Canta, come e ri. )

HOMEM 1 – Cara-de-pau é daquela menininha que seqüestrou a filha do ricaço, para distribuir cestas de alimentos para os necessitados. (irônico) Dá uma dó!…

HOMEM 2 – O cara fez a cabeça dela direitinho…

HOMEM – Fez a cabeça, o quê! Ela sabia muito bem o que estava fazendo…

PERSIGAL – (correndo pelo palco e tentando se relacionar com as pessoas) Não há ninguém de onde possa partir uma idéia? Se foder o mínimo possível, de modo que você possa entrar onde você pretende entrar? De que vale a vida cheia de símbolos diversos, se quem vale a vida é cheio de símbolo fixo?

(Som grotesco, fazendo com que Persigal se volte para o fogo e emita grunhidos, como se estivesse respondendo uma pergunta. Novo som grotesco. Persigal se volta para o lado oposto das pessoas e responde grunhindo. Deixa as pessoas completamente e se volta para o fogo.)

PERSIGAL – A vida declara seu amor na existência do corpo fétido. Tento chorar, mas sinto os olhos enxutos. A forma não tem importância, é o fundo que conta. Nada é gratuito neste mundo. Tudo se paga, o bem, assim como o mal, cedo ou tarde se paga. O bem é muito mais caro… Necessariamente…

“(…)Acostumei-me, assim, pois, a sofrer

E acostumado a assim sofrer existo…

Existo! – E apesar disto

Inda cadáver hei também de ser!

Quando eu morrer de novo, amigos, quando

Eu, de saudades me despedaçando,

De novo, triste e sem cantar, morrer,

Nada se altere em sua marcha infinda

-         O tamarindo reverdeça ainda,

A lua continue sempre a nascer!”

(Persigal pega o saco e sai. Pessoas conversam sobre futebol enquanto a luz vai apagando…)

HOMEM 1 – Não adianta escalar três zagueiros, camarada. Já viu zagueiro saber fazer gol? Só faz na cagada…

HOMEM 2 – Mas o time vai entrosar. Aí eu quero ver quem vai nos segurar…

PERSIGAL – (grita de fora da cena) Vamos celebrar!!!

FIM

Este texto é uma tentativa de montar algo baseado em vários outros textos, inter-textualizando-os para outro fim. Os textos utilizados, ora como trechos citados, ora como influência direta: Persigal, de Neander Cortez, Cenas da Penitenciária (conto) e Notas de um velho safado, de Charles Bukovski, Morte a Crédito e A vida e a obra de Semmelweis, de Cèline, Falas a Dioniso em crise, de minha autoria, diversos fragmentos de poesia grega e latina e alguns poemas de Augusto dos Anjos, inclusive o poema Dolências, que dá nome ao texto e é declamado pelo personagem.

Hilam A na Grama

Compilador

Seis poemas à procura de um autor

2009 Julho 8
por hilam

Seis poemas à procura de um autor
Hilam A na Grama

para quê

para quê

I

para quê? para quem? para quando? para
começar, não emendo o pré-estabelecido,
não rodeio quando é pra desmascarar
qualquer estapafúrdia enganação. vejam
a tv, o cinema industrial, a publicidade;
como suportar tanta agrssão sem pirar?

afaste-se do que o enoja. ninguém é
obrigado a suportar engulhos e reviradas.
o amor está longe de ser algo fácil
de alcancçar, muito menos de conservar.
terrificante esperar pela próxima novi-
dade no desespero sem fim do querer

e do sonho que não se alcança, o sofri-
mento de epicuro, não querer o que não
for quase certo, sob o que tem controle,
controlar o sofrimento, a dor, que a vida
já dói bastante, deixa marcas indeléleis,
marcas superficiais, marcas profundas,
manchas mundanas na couraça.

lagrima

II

o esquecimento e a esperança diminuem
a dor; mas não ajudam a superar, a menos
que apareça o choque, um despertar não
menos doloroso, mas que com pouco ci-
catriza as feridas maiores, aquelas com
contornos amarelos subjugadas pelo inchaço.

nunca se tem muita segurança sobre
o que falar, como ajudar uma alma,
mesmo que penada, ou empenada; querer
é o princípio da dor, está mais que provado.
mas como dizer isso para quem não tem
nada, e o que deseja é propagado como

básico, essencial, imortal, vindouro,
vida eterna todo sempre amén;
nada de perder para ganhar, ou
revirar de vez para organizar tudo…

dsc_9216

III

O inferno na torre

o desespero material nunca nos tornará
menos frágeis; eu havia marcado uma
série de frases, mas perco todas no
momento, o que recuperar é porque
está tão pegado na pele que já se
tornou vocabulário, e arma de co-
municação, abrangente como tor-
tura, mas não tão forte, apela para
algo etéreo, um ser ideal que se
acredita possível; uma vez girando
nesta roda, sem o controle, por quê
partir para o desespero, gritar, choro
e ranger de dentes? quanta carnificina
real será necessária para alertarmos
o fundo do coração que ele está
enxergando com olhos embaçados?

22/05/09

Alaska_Glacier_2006

IV

O louco no carro

onde iremos chegar? onde iremos parar?
para onde nos levarão nossos passos, tão
certeiros, tão guiados nos fatos, que até
nos prendem em correntes, visíveis torturas,
que vão subjugar nossa vontade, parece que
para todo sempre, num poço sem fundo.

por quê chegar ao ponto de construir uma
realidade caótica, tão falsa que desmorona
com qualquer vento lateral, uma pluma
de verdade imaginada, contagiando? a
chuva chama a lágrima, chovendo de
dentro pra fora, molhando o corpo com
o óleo benfazejo do espírito derramado.

até onde iremos insistir na falsidade,
até quando construiremos em barrancos
de areia mole, que cede a qualquer
temporal? quem não suporta mudar
não deve deixar rastro, ou sempre
será achado, visado no aeroplano,
requerido para organizar o que
sobra…

lilith

V

Espelho meu

precisamos ter algo para idolatrar: seja
um arco-íris, ou um reflexo numa porta
de vidro; ou ainda, alguém que você não
controla, não consegue abster-se de olhar.

o desejo nasce do olhar e do não-olhar.
o arquiteto da vontade é o que vemos e
ainda o que não vemos, mas imaginamos.
é escravidão do instinto ou evolução da espécie?

as máscaras escondem nossa bondade, mas
também nossa desintegração; uma inexistência
que leva à outra. um paradigma absorvendo
as realidades palpáveis, esquinas de mortos.

a vida que pulsa pode parar, depende do
movimento, não pode viver sem doar-se;
quer isto, procura isto, doar o calor,
o bater rápido do coração, a lágrima…

04/06/09

MINERVA

VI

quantas pontes teremos que atravessar?
porquê esperar é sempre a melhor resposta?
teremos o que quisermos, mesmo que
seja delirando nossos pensamentos…

a dor irreal está presente em toda
fantasia; a concretude da idéia que
também se torna presente (presença),
como uma ficha, numa mesa de jogo mortal.

e as surpresas (presentes) que nos tomam?
visão e desejo irreal tornam-se realidade,
mesmo de longe, o ato aproxima, nada é fácil;
papas de plumas em face estupefacta…

quadras reais, semiótica presente, deuses
mortos pelos cantos, crises sem número,
plataformas se chocando, tudo ruindo,
como se o real virasse idéia mirabolante.

10/06/09

Charles Bukowski – nobody can save you but yourself

2009 Junho 22
por hilam

Relógio

Relógio

nobody can save you but
yourself.
you will be put again and again
into nearly impossible
situations.
they will attempt again and again
through subterfuge, guise and
force
to make you submit, quit and/or die quietly
inside.

nobody can save you but
yourself
and it will be easy enough to fail
so very easily
but don’t, don’t, don’t.
just watch them.
listen to them.
do you want to be like that?
a faceless, mindless, heartless
being?
do you want to experience
death before death?

nobody can save you but
yourself
and you’re worth saving.
it’s a war not easily won
but if anything is worth winning then
this is it.

think about it.
think about saving your self.

Tradução:

ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
será colocado, por vezes e vezes,
em situações quase impossíveis.
tentarão, por vezes e vezes,
todos os subterfúgios, forma e
força
que façam-no ceder, desistir e/ou morrer por dentro,
calmamente.

ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
e será fácil suficiente cair,
muito fácil.
mas não caia, não caia, não.
apenas assista-os.
escute-os.
você quer ser como eles?
seres sem face, sem mente,
sem coração?
quer saber o que é morrer
antes de morrer?

ninguém pode salvá-lo,
a não ser você mesmo.
e você merece ser salvo.
é guerra que não se ganha facilmente
mas, se é que haja vitória merecida,
então esta é.

pense sobre isso.
pense sobre salvar sua alma.

traduzido por Hilam A na Grama

Radiohead – There there

2009 Março 17
por hilam

radiohead1

in pitch dark i go walking in your landscape.
broken branches trip me as i speak.
just because you feel it doesnt mean it’s there.
just because you feel it doesnt mean it’s there.

there’s always a siren
singing you to shipwreck.
(don’t reach out, don’t reach out)
steer away from these rocks
we’d be a walking disaster.
(don’t reach out, don’t reach out)

just because you feel it doesn’t mean it’s there.
(there’s someone on your shoulder)
just because you feel it doesn’t mean it’s there.
(there’s someone on your shoulder)

there there

why so green and lonely?
heaven sent you to me.

we are accidents
waiting waiting to happen.

we are accidents
waiting waiting to happen.

Tradução:

No escuro andando em sua paisagem,
galhos quebrados viajam enquanto falo.
Só porque você sente não quer dizer que exista.
Só porque você sente não quer dizer que esteja lá.

há sempre uma sereia
cantando-lhe o naufrágio
(não vai chegar, não vai chegar)
afaste-se destas rochas
ou caminharemos ao desastre
(não vai chegar, não vai chegar)

Só porque você sente não quer dizer que seja real.
(há alguém em seu encalço)
Só porque você sente não quer dizer que esteja lá.
(há alguém em seu encalço)

lá lá

Porquê tão verde e solitário?
O céu te mandou para mim.

somos acidentes
à espera de acontecer.

somos acidentes
à espera de acontecer.

Traduzido por Hilam A na Grama

Radiohead – Creep

2009 Março 17
por hilam
Radiohead Cartoon

Radiohead Cartoon

When you were here before,
couldn’t look you in the eye.
You’re just like an angel,
your skin makes me cry.
You float like a feather,
in a beautiful world
I wish I was special,
you’re so fucking special.

But I’m a creep, I’m a weirdo.
What the hell am I doing here?
I don’t belong here.

I don’t care if it hurts,
I want to have control.
I want a perfect body,
I want a perfect soul.
I want you to notice,
when I’m not around.
You’re so fucking special,
I wish I was special.

But I’m a creep, I’m a weirdo.
What the hell am I doing here?.
I don’t belong here

She’s running out the door,
she’s running,
she run, run, run, run, run.

Whatever makes you happy,
whatever you want.
You’re so fucking special,
I wish I was special,

but I’m a creep, I’m a weirdo.
What the hell am I doing here?
I don’t belong here,
I don’t belong here.

Tradução:

Quando você esteve aqui antes,
não pude olhar no seu olho.
Você é como um anjo,
sua pele me faz chorar.
Você flutua como uma pluma,
em um belo mundo
Eu queria ser especial,
você é tão especial…

Mas eu sou uma aberração, sou um anormal.
Que diabos estou fazendo aqui?
Eu não sou desse mundo.

Não me importo se dói,
Eu quero ter o controle.
Quero um corpo perfeito,
Eu quero uma alma perfeita.
Quero que você me perceba,
quando eu não estou por perto.
Você é tão especial,
Eu queria ser especial.

Mas eu sou uma aberração, sou um anormal.
Que diabos estou fazendo aqui?.
Não sou desse mundo

Ela está saindo pela porta,
ela está correndo,
ela corre, corre, corre, corre, corre.

Qualquer coisa te faz feliz,
o que você quiser.
Você é tão especial,
Eu queria ser especial,

mas eu sou uma aberração, sou um anormal.
Que diabos estou fazendo aqui?
Não sou desse mundo,
Não sou desse mundo.

Traduzido por Hilam A na Grama